Redefinição do quilograma

 

Uma nova definição para o quilograma, baseada nas equações da relatividade (E=mc2) e de Plank ( E=hn ), está sendo proposta motivada pelos recentes progressos obtidos nas pesquisas com balanças de Watt. Estas balanças, junto com uma definição apropriada, prometem disponibilizar um método prático para calibrar massas padrões, diretamente.

 

 

A determinação da constante de Plank ( h ) pelo NIST ( National Institute of Standards and Technology ) por meio de uma balança de Watt, com uma espira magnética que se movimenta verticalmente, mostrou ter um valor numérico com uma incerteza combinada relativa ucr , da ordem de ± 9x10-8. Alterações de experimento, correntemente em andamento no mesmo Instituto, apresentam uma expectativa de exatidão ainda melhor. Está prevista uma redução da incerteza de uma ordem de grandeza, ou seja, para ± 1x10-8. Da mesma forma, a balança de Watt do NPL ( National Physical Laboratory ) em Teddington, está com a expectativa de determinar a mesma constante h com uma incerteza ainda menor que ±1x10-8.

É consenso geral que, se um invariante da natureza, tal como a constante de Plank, a massa de um átomo, ou a massa de uma partícula fundamental, puderem ser relacionados com o protótipo internacional do quilograma, com uma incerteza desta magnitude, está na hora, então, de se levar em consideração, seriamente, uma redefinição para a unidade de massa do Sistema Internacional de Unidades SI.

Desta forma estar-se-á eliminando o último artefato físico deste sistema de unidades. O objetivo deste trabalho é propor uma definição que aproveite a total vantagem da capacidade de uma balança de Watt em, diretamente, relacionar a massa padrão do quilograma com o valor de h.

O princípio fundamental da balança de Watt, proposta pela primeira vez por Kibble do NPL, há quase 20 anos, é agora perfeitamente conhecido. A potência P é determinada de duas maneiras: mecanicamente, em função de variáveis tais como massa, comprimento e tempo, e, eletricamente em termos de tensão elétrica e intensidade de corrente por meio dos efeitos de Josephson ( JE ) e o de Hall ( QHE ). Mais especificamente, conforme a equação 1

 

U I = m s g v     ( 1 )

Onde U é a tensão induzida entre os terminais da espira em movimento vertical com velocidade v num campo radial magnético de intensidade B e I, a corrente elétrica percorrida na espira. A força na espira devida à corrente I e ao campo magnético B, equilibra o peso dado pela expressão m s . g de uma massa padrão m s , e da aceleração da gravidade local g. Como U e I são medidos em termos de JE e QHE pode ser escrito, então, conforme a equação 2:

         ( 2 )

 

Na expressão acima, K j-90 e Rk-90, são também constantes consideradas exatas e tomadas com valores de 483597,0 GHz / V e 25812,807 W, respectivamente.

O valor { U }V 90 é o da tensão induzida U, medida em termos de JE e { I }A 90, o valor numérico da corrente I também medido em termos dos JE e QHE. Ainda na expressão, {g } e { v } representam a aceleração da gravidade em m/s2 e a velocidade vertical da espira em m/s, respectivamente.

Todas as quantidades do lado direito da equação acima têm valores exatos ou são determinados experimentalmente através da balança de Watt, exceto a constante de Plank h. Isto naturalmente conduz à idéia de se redefinir o quilograma de tal maneira a considerar o valor de h, como fixo. Se isto for feito, tudo o que se precisa para aplicar a nova definição do quilograma é realizar o experimento com a balança de Watt ( ou com qualquer outro experimento que possa determinar a mesma potência mecanicamente e eletricamente ).

As atuais definições do metro, ampère e do mole têm o efeito de fixar o valor da velocidade da luz no vácuo c, a constante magnética m0 e a massa molar do átomo de carbono 12 M(12C), respectivamente. A nova definição do quilograma baseada num valor fixo para a constante h, é a seguinte:

 

O quilograma é a massa de um corpo em repouso cuja energia equivalente, iguala-se à energia de uma coleção de fótons com freqüência total de 135 639 247 x 1042 hertz.

 

O valor da constante h, que resulta desta definição, segue a tão conhecida equação da relatividade de Einstein, E=mc2 e a relação E=hn , aplicada pela primeira vez por Plank para a emissão e absorção da energia radiante e posteriormente, por Einstein, para a energia dos fótons. Assim, conforme a equação 3:

 

( 3 )

 

onde a velocidade da luz c = 299 792 458 m/s é considerada uma constante exata ( valor fixo )

 

Se a definição acima for adotada, a freqüência total a ser considerada na equação acima (3)

deverá ser baseada nos melhores ( mais exatos ) valores disponíveis, e o valor de h baseado na referência de Williams [ Williams E. R. , Steiner R. L. , Newell D. B. e Olsen P. T. , Phys. Ver. Lett. 1998, 81, 2404-2407 ] de tal forma a minimizar uma possível descontinuidade no sistema de unidades SI.

 

Taylor propôs, também, uma nova definição para o quilograma junto com a existência da definição de mole, fixado na constante de Avogadro, NA . Isto, naturalmente, conduziu a uma definição simplificada do mole. Duas definições são apresentadas:

 

O quilograma é a massa de 5,018...x1025 átomos livres de carbono ( 12C ) em repouso e no seu estado fundamental.

 

O mole é a quantidade de uma substância de um sistema que contém 6,022...x1023 entidades especificadas.

 

 

Já que a unidade de massa atômica unificada u é relacionada com NA pela expressão u=M0/NA , onde M0=10-3 kg mol-1 , ela passa a ser também tomada como um valor fixo.

 

Embora estas definições tenham apelos estéticos, alguns problemas são ressaltados. Como NA é um valor fixo e não h, a balança de Watt não pode ser usada para implementar diretamente a definição do quilograma e calibrar massas padrões. As constantes de Plank e Avogadro são relacionadas pela expressão ( equação 4 ) :

 

( 4 )

 

onde Ar( e ) é a massa atômica relativa do elétron, a2 é o quadrado da constante " fina estrutura ", e constante de Rydberg.

Embora a incerteza relativa ( u c,r ) deste grupo de constantes seja menor do que 1,0x10-8, ela não é perfeitamente determinada e, desta forma, o valor de h não se torna inteiramente conhecido. Isto implica que os valores de massa, avaliados pela balança de Watt, terão componentes de incerteza adicionais e os valores precisarão ser revisados sejam quais forem os valores de Ar( e ), a ou disponíveis.

 

Concluindo, acredita-se que, neste caso, vence a definição que fixa o valor de h. Certamente que esta definição está baseada na superioridade da balança de Watt sobre outros métodos. Se, por exemplo, a densidade de raio X, preconizada por Taylor, ou a constante de Faraday no vácuo, apresentada por Gläser, métodos que determinam NA, puderem alcançar um valor para a incerteza uc,r menor, então a definição que fixa NA poderá ser a preferível.

Autores:

B. N. Taylor e P. J. Mohr

Tradução: Vilson C. S. Ferreira

Publicação: Jornal da Metrologia outubro/1999

 

Outros artigos relacionados